Ridendo castigat mores...


Bem-vindo! Se veio aqui parar provavelmente veio enganado. Deve andar à procura de outro blog qualquer, muito mais interessante que este, e o google enganou-o e trouxe-o até aqui. Mas já que cá está, sente-se e beba um copo.

Este não é mais um blog com pretensiosismos intelectualóides nem tão pouco com carácter de intervenção. É pura e simplesmente um blog totalmente politicamente incorrecto escrito por alguém que trabalha em ciência em Portugal e que, nos tempos livres *command not found*, provavelmente não tem mais que fazer do que vir para aqui libertar as suas frustrações e dizer mal de tudo e de todos. Daí o Contra.

Não vale a pena adicionar este blog aos seus favoritos nem subscrever os feeds porque provavelmente não vai haver aqui nenhuma informação que verdadeiramente lhe interesse. Se procura informação científica credível também não vai encontrar. Tente na Web of Knowledge (3º corredor à esquerda, 2ª porta a seguir à escada; por favor ignore o letreiro à entrada que diz WC). Se procura financiamento científico, então está mesmo perdido de todo! Procure na FCT - Foda-se a Ciência e Tecnologia.

Se ainda está a ler isto é porque provavelmente é quase tão desocupado como eu e isso não revela nada de auspicioso para o seu futuro. De qualquer modo, deixe-se ficar e prepare-se para algo totalmente diferente! A realidade das histórias que aqui serão descritas é tudo menos coincidência e estas seriam hilariantes se não fossem tragicamente cómicas.

(Esta mensagem foi patrocinada pelo Dicionário da Língua Portuguesa, edição pré-acordo ortográfico, cuja palavra do dia é provavelmente. Sim, que a ligação à net para poder blogar é cara e a ciência, como toda a gente sabe, não é exactamente uma fonte lucrativa.)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

IEFP: convidamos Vª Exa. à precariedade

Na passada semana, na sequência da minha inscrição no centro de emprego, digna de nota no post anterior deste mesmo blog, recebi uma carta do IEFP, "convidando-me" a comparecer à sessão de divulgação do programa de estágios profissionais na administração pública central (vulgo PEPAC). Muito diligentes e preocupados, os Srs. do centro de emprego, diria o caro leitor. Sem dúvida, diria eu, não fosse o carácter coercivo da dita missiva, na qual se pode ler:

"A sua não comparência ou posterior recusa em participar na referida intervenção pode implicar as seguintes consequências:
* anulação da sua inscrição para emprego
* impossibilidade de revalidação da sua inscrição nos 90 dias que se seguem à data anulação"

E assina, com os melhores cumprimentos, pelo director do referido centro de emprego, o Exmo. Sr. Rui Maria.
E não, não me enganei a transcrever as frases, de facto falta ali um "da" entre data e anulação (DAAAAAAHH!!!).

Ora, eu que tenho este defeito terrível que é o espírito crítico, e reajo mal a ameaças, fiquei a pensar (às vezes dá-me p'ra isto, pensar... coisas de quem não tem mais nada que fazer!)... Esta brilhante carta levanta-me uma série de questões que, atempadamente, dirigirei directamente ao IEFP, mas que decidi antecipar neste meu brilhante blog e ao não menos brilhante leitor:

1- que obrigação tenho eu perante o IEFP de comparecer a esta sessão de divulgação se não estou a auferir de nenhum subsídio do estado devido à minha condição de indigente? E o IEFP, está a cumprir com a sua obrigação de me arranjar emprego? Que diligências estão a ser feitas nesse sentido? Se o IEFP considera que coagir as pessoas a irem a sessões de divulgação de estágios profissionais é uma boa forma de lhes encontrar emprego, então cada vez mais entendo por que razão a taxa de desemprego atinge já quase os 17%;

2- perdoem a minha inocência, mas sempre pensei que o objectivo de um estágio (profissional ou não) fosse adquirir experiência inicial e competência. Gostava que me explicassem como é que um estágio profissional irá contribuir para a minha experiência ou aquisição de competências, tendo eu doutoramento e datando a minha primeira produção científica de 2003, perfazendo um total de mais de 10 anos de experiência comprovada na área...

3- grandes esforços têm sido envidados no sentido de reduzir a função pública, fazendo-nos crer que existem funcionários a mais e que o trabalho que estes têm a desempenhar não justifica tamanho erário. E agora querem contratar estagiários para desempenhar essas funções? Mas afinal existem ou não trabalhadores do estado a mais? Se existem funcionários a mais, então para que são necessários estagiários? Ou isto não passa de mais um embuste para escamotear os vergonhosos índices de desemprego?

4- se não existem funcionários do estado a mais e, de facto, há necessidade de encontrar mão-de-obra extra para desempenhar as tarefas em mãos, então estão a despedir-se funcionários públicos porquê? Para os substituir por estagiários? Então isto não passa de uma artimanha para "contratarem" pessoal altamente qualificado a preços de saldo! Eu compreendo que seja realmente muito mais vantajoso para o estado contratar-me como estagiário para desempenhar tarefas em que, com as minhas competências, estaria a ganhar, no mínimo, 3 vezes mais. Efectivamente, pelas cartas que recebo, não só do IEFP como de outras entidades públicas, é bastante claro para mim que realmente precisam de uma ajudinha, especialmente no que toca à construção gramatical. Mas não gozem com a minha cara!

Como escreveu alguém que conheço: não tarda o IEFP está a subsidiar estágios em bordéis e o populacho até vai ficar agradecidinho por essa oportunidade...

EXMO. SR. RUI MARIA E RESPECTIVO DIRECTOR DO CENTRO DE EMPREGO, IDE-VOS FODER, SIM?

Com os melhores cumprimentos, claro...

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Viagens na minha terra: Centro de Emprego

Cerca de 6 meses após ter passado a pertencer à maior classe proletária do país - os desempregados - e de ter delapidado as minhas parcas economias, decidi inscrever-me no centro de emprego da cidade onde resido actualmente. Não que tenha ilusões de que consiga efectivamente arranjar emprego por este meio, mas porque: a) faço questão de fazer parte das estatísticas, e b) uma vez que o país investiu na minha formação e eu cumpri a minha parte - estudei, formei-me com sucesso e contribuí para o desenvolvimento da ciência em Portugal -, agora que o meu país não me dá oportunidade, faço questão de ser mais um fardo e ir pedir (de novo) o Rendimento Social de Inserção. Mesmo que não o consiga (que considero ser o mais provável) pelo menos tiveram que se dar ao trabalho de analisar o meu caso.

Ora, nos dias que correm, uma ida ao centro de emprego é já algo banal, especialmente numa região em que o desemprego ultrapassou já os 20%. Portanto, o leitor pergunta-se porque raio esta "viagem na minha terra" será assunto para mais um dos meus já conhecidamente corrosivos posts. E eu prometo que quando tiver chegado ao fim deste post terá compreendido (se não tiver compreendido então talvez seja melhor ir ler um outro blog sobre a última celebridade do mundo côr-de-rosa ou os penteados que vão estar na moda na próxima estação...).

Eis então que a minha primeira supresa quando me dirigi ao centro de emprego (de ora em diante referido como CE) foi a sua localização. Desde há muitos anos que este CE se situa na zona central da cidade, numa localização de fácil acesso. Pois qual não foi o meu espanto ao saber que o CE tinha sido deslocalizado! Curiosamente (ou devo dizer estrategicamente?), o CE foi literalmente refundido para uma zona industrial limítrofe da cidade, cuja abrangência por transportes públicos é escassa e limitada. No entanto, tem um bom parque de estacionamento, pois toda a gente sabe que possuir um automóvel é condição essencial a qualquer desempregado que leve a sério a sua busca por esse bem tão escasso e luxuoso que é ter um emprego! Eu, desprevenidamente, lá tive que caminhar até à nova localização do CE. Raios me partam se vi uma única placa de indicação pelo caminho a indicar onde ficava esta nova localização!

Entrando nestas novíssimas instalações, começa o enredo kafkiano do costume: o sistema de distribuição de senhas estava "avariado". Um edifício novo, a tecnologia existe, mas está "avariada". Fiquei a saber mais tarde que esta "avaria" nada mais é do que um embuste, uma patranha ardilosa originada por questões de gestão e organização duvidosas. O que se passa é que existe um limite máximo de senhas de atendimento que são distribuídas por dia e, cito o segurança que me atendeu, "tendo em conta o número de técnicos que estão disponíveis". E pergunto eu: então e onde andam os restantes técnicos que não estão disponíveis? Estão a fazer o quê? A delinear estratégias para ludibriar as estatísticas, como as "formações" e os "estágios"? Ou simplesmente não existem técnicos suficientes? Não seja por isso, eu encarrego-me já de vos indicar umas quantas pessoas competentes para o efeito. Competentes? Ah, peço desculpa, bem sei que esse é um critério de desclassificação...

Sentei-me e aguardei pacientemente a minha vez (nota mental: para a próxima levar o portátil para ir escrevendo este post em tempo real), não sem observar atentamente tudo o que me rodeava. Constatei, já sem surpresa - porque é facto patente aos olhos de todos que o actual governo está apostado em escorraçar daqui para fora todos aqueles que tenham mais que 2 neurónios - que existe disponível, facilmente acessível, e convenientemente deixado "ao acaso", em cima da única mesa que existe para utilização do público, um dossier para consulta, em cuja capa se pode ler em letras garrafais "OPORTUNIDADES DE EMPREGO PARA O ESTRANGEIRO". Foi também com pouca surpresa que verifiquei que não estava assim tão facilmente disponível para consulta nem uma única vaga de emprego em Portugal ou sequer na região... Ah! Eu e as minhas teorias da conspiração!... Foi, com toda a certeza, um lapso!

Aguardei cerca de 2 horas e nada tenho a apontar ao atendimento. Quando me perguntaram que emprego aceitaria imediatamente, apeteceu-me responder "Qualquer um que inclua um salário". Fiquei a saber que para me candidatar ao RSI terei que fazer prova de que estou activamente à procura de emprego, apresentando 4 respostas a anúncios por mês. AHAHAHHAHAHAHAH! Isto é uma busca activa de emprego? 4 anúncios de emprego por mês para mim é prospecção de mercado, busca activa é 4 anúncios por dia... 4 é também o número de anúncios de emprego disponíveis na cidade... É de deixar qualquer um perplexo como é possível existirem tantos desempregados quando existe tal abundância e diversidade de empregos. Claramente o povo português não quer é trabalhar!

Vejo agora nas notícias o nosso caríssimo governante leporídeo a anunciar mais uns milhões do QREN na qualificação dos portugueses. Tendo em conta que a grande percentagem de desempregados actualmente em Portugal são altamente qualificados, com licenciaturas, mestrados, pós-graduações, etc, parece-me realmente uma medida extremamente útil para resolver os graves problemas do país... Gostava de saber qual é a qualificação que me recomendam... deverei fazer um segundo doutoramento?

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Falta de Liquidez (ou tão tristemente actual...)

Mais de um ano passou desde a minha última publicação e constato, ao ler as mensagens anteriores, que tudo continua tão tristemente actual. Em boa verdade não, a realidade actual consegue ultrapassar todas as minhas expectativas mais pessimistas.

Um ano volvido... um ano em que Portugal cada vez mais se afunda neste pântano pestilento que é a União Europeia. Um ano em que cada vez mais jovens altamente qualificados se vêem obrigados a abandonar o seu país, a sua família, a sua vida, para procurarem a mera sobrevivência num qualquer país estrangeiro. Até países outrora considerados de 3º mundo, são agora capazes de oferecer a estes jovens mais e melhores oportunidades.

Um ano em que assistimos, com estupefacção (ou talvez não, tendo em conta a proveniência das declarações), a um primeiro-ministro que chama o povo que o elegeu de piegas, num total desrespeito pelos sacrifícios impostos em nome de uma estabilidade económica que nunca chega;
a um secretário de estado da Juventude que, em modo "quem está mal que se mude", apela a que os jovens saiam da sua "zona de conforto" e insistem em insultar a inteligência dos que a isto assistem dizendo que estes jovens vão buscar know-how e voltarão depois para enriquecer o país - mas quem em sua sã consciência acredita que estes jovens voltarão a um país que não lhes deu oportunidade?;
a um ministro adjunto e dos assuntos parlamentares que era doutor ainda antes de ser licenciado e até a sua suposta licenciatura é obscura;
a um ministro da economia que, face a um povo sereno que come e cala um "enorme aumento de impostos", diz estar perante o melhor povo do mundo (afinal somos os bons alunos da Europa!);
a uma demonstração pública (pouco) velada da subserviência de Portugal aos interesses (pouco) europeus, no dia em que se comemorava a implantação da República;

... e tantas, tantas outras pérolas oferecidas por estes porcos que (des)governam esta jangada de pedra cada vez mais afundada, qual Titanic, mas não em água e sim em merda! Tanta tanta merda!...

Mais um ano em que se acenam (para alemão ver) com milhões para investir na ciência em Portugal, mas as Universidades estão à beira da falência e assumem fechar portas e se demonstra que o dinheiro efectivamente investido "cobre, mesmo na hipótese mais conservadora, 2,5% do montante global solicitado". Um ano em que novamente o meu projecto de investigação científica "inovador e ambicioso", tal como descrito na avaliação da entidade financiadora (FCT), foi rejeitado... um ano em que, tal como esperava e não obstante o meu constante esforço em querer contribuir para a cultura científica do meu país, o desemprego mais uma vez me bateu à porta, sem qualquer protecção social que não sejam as economias dos meus pais.

Um ano em que, não auferindo eu quaisquer rendimentos, a minha ex-entidade empregadora, alegando falta de liquidez, levou mais de 5 meses para me pagar mais de 300 euros que teriam que me ser reembolsados. Meus caros senhores, eu sou sensível e empática com a vossa falta de liquidez! De facto, estou tão solidária com o vosso argumento, que penso seriamente utilizá-lo no pagamento das próximas facturas de água, luz e gás! Quiçá no próximo pagamento da renda ao senhorio ou na próxima prestação do crédito habitação ao banco! Já estou mesmo a imaginar o Sr. Espírito Santo ou o Sr. Ulrich lavados em lágrimas com a minha falta de liquidez! Mais! Quando fôr à mercearia do Tio Belmiro, vou pagar com isso mesmo: falta de liquidez!

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Há quem trabalhe para ser pago e quem pague para trabalhar!

Em primeiríssimo lugar, queiram os caríssimos leitores desculpar a prolongada ausência, que se deveu a um estado de satisfação profissional, obviamente temporário e de curta duração (e de alguma ingenuidade e boa vontade, devo confessar). A crise aperta a todos e há que poupar nas letras e mais ainda no tempo que o digníssimo leitor despende nesta minha/sua húmil casa virtual. No entanto, não quis eu deixar o nobre leitor sem nada que fazer na meia hora extra que o nosso magnânimo governo decidiu generosamente atribuir a todos os trabalhadores. Portanto, cá fica a minha mui modesta contribuição para a estabilidade do país.


Ora, visto que nos últimos tempos não se fala de outra coisa a não ser de dinheiro, eu, que sou um blogger sempre actualizado, decidi fazer um post sobre isso mesmo: dinheiro. Mais concretamente o dinheiro que (não) me pagam, o dinheiro que eu empresto à minha entidade patronal e, ainda, o dinheiro que recebo tarde e a más horas!
Em Novembro de 2010, receberam todos os membros do centro de investigação onde actualmente trabalho o seguinte email:
Caros Colegas,
Infelizmente, devido a um problema de saldo bancário, não é possível o pagamento dos salários e bolsas na data habitual de 22 de Novembro. De momento também não podemos especificar uma nova data.
A nossa prioridade é pagar os salários e bolsas (e impostos) em Novembro. Só após termos também assegurados os pagamentos para Dezembro e subsídio de Natal, pagaremos reembolsos e empresas, etc.”

Em Junho de 2011, recebemos mais um agradável email:
“Caros Colegas / Dear Colleagues
Infelizmente estamos novamente numa situação de dificuldade de liquidez bancária, pelo que não é possível o pagamento dos salários e bolsas na data habitual. De momento também não podemos especificar uma nova data.
Este problema resulta primariamente do facto de não termos ainda recebido fundos para funcionamento do laboratório associado este ano. Estamos a envidar todos os nossos esforços para resolver a situação o mais rapidamente possível.”

(risos) Isto é tão ridículo que se torna cómico… mas não ficamos por aqui!
Em Agosto de 2011, após já ter pago 2 meses de Seguro Social Voluntário (uma espécie de segurança social para pegas e bolseiros), no valor mensal de 102,71€, e de, até à data, nenhum me ter sido reembolsado, perguntei ao responsável pela tesouraria qual a razão do atraso dos reembolsos. Mais uma vez me foi dada a justificação da falta de liquidez. Ao perguntar se teriam perspectivas de quando poderiam pagar, foi-me respondido que não faziam ideia.
Em Setembro de 2011, necessitei fazer uma deslocação científica à Alemanha. Paguei a viagem de avião, no valor de 469,98€, exactamente no dia 13 de Julho de 2011. Imediatamente procedi ao preenchimento de toda a parafernália burocrática para que o dinheiro me fosse reembolsado o mais rapidamente possível, pois que também eu sofro de problemas de liquidez.
Ora perfaz no total o valor de 675,40€. Se o leitor os encontrar, por favor indique-lhes o caminho de casa! Deixam muita saudade!

domingo, 6 de março de 2011

Mais um insulto à inteligência dos portugueses...

No Questionário Individual dos Censos 2011, que pode ser consultado, entre outros questionários, aqui:

https://censos2011.ine.pt/ecensoswebaux/questionariospapel.aspx

pode ler-se a seguinte pergunta:



Ora bem... se bem me recordo, quem trabalha a recibos verdes é trabalhador independente. Quem trabalha numa empresa, com subordinação hierárquica e horário de trabalho definido não devia estar a trabalhar a recibos verdes. Portanto, num ápice um trabalhador em situação de trabalho precário passa a ser um trabalhador por conta de outrem! Assim se manipulam as estatísticas em Portugal, mesmo em frente aos nossos olhos. Qualquer dia dizem que os bolseiros são trabalhadores do estado!

Eu vou boiocotar os Censos 2011, recuso-me a compactuar com estas estratégias de manipulação da realidade portuguesa e não gosto que insultem a minha inteligência. E você?

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Chegou o momento...

Caros amigos, chegou o momento. Este não é mais um post, este é "O" post. É o post que eu há tanto ansiava por publicar e não o fiz há mais tempo por receio de retaliações que me pudessem prejudicar a vida profissional. Mas agora que já tenho oficialmente o papelinho mágico, vou meter a boca no trombone ou, numa tradução literal de uma expressão americana, vou mandar a merda à ventoinha! A história que vos vou contar é verídica e passada na primeira pessoa e revela a total falta de carácter, de palavra de honra e de boa fé praticada nas instituições públicas de ensino superior, mais concretamente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL).

Em 2004 candidatei-me a uma bolsa de doutoramento financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) que acabei por ganhar. Ao proceder à inscrição no plano de doutoramento da FCUL (e respectivo registo da tese), o regulamento que estava em vigor não previa qualquer pagamento de propinas. Até porque a própria FCT já disponibiliza à faculdade o valor de 2750 euros/ano referentes ao que eles chamam de gastos de formação.
A meio do meu doutoramento, começaram a ouvir-se rumores de que a FCUL passaria a cobrar o valor anual de 4000 euros referentes a propinas de doutoramento e que esta medida seria aplicada a todos os alunos de doutoramento, independentemente do ano em que se teriam inscrito, ou seja, com carácter retroactivo. Obviamente, instalou-se o pânico entre os alunos de doutoramento! Tendo em conta que o valor anual de uma bolsa de doutoramento é de 11760 euros, ter que pagar 4000 por ano, 34% do nosso "subsídio de manutenção mensal" seria para pagar propinas que nem sequer estavam previstas na altura da nossa inscrição. Fizeram-se reuniões e manifestaram-se opiniões de desagrado junto dos dirigentes da FCUL, tentanto trazê-los à razão.
Todos nós sabemos o caótico (para não lhe chamar totalmente insustentado) estado financeiro das universidades públicas em Portugal. Mas não devem ser os alunos a pagar a factura e muito menos serem mudadas as regras do jogo quando este vai a meio. A grande maioria dos alunos de doutoramento, se soubesse que teria que pagar 4000 euros de propinas por ano, nem sequer se teria inscrito para doutoramento, pois sabiam à partida que era incomportável. Que aplicassem estas regras aos novos inscritos, tudo bem, estes já saberiam ao que íam, agora aplicar esta regra indiscriminadamente a todos os que se tinham inscrito sob outras condições, foi um acto de total desrespeito pelos alunos de doutoramento que, em última análise, são os que mais contribuem para a investigação científica que se faz nas universidades.

Perante perspectivas sérias de manifestações mais contundentes que obviamente manchariam a reputação da mui nobre FCUL, esta recuou. Para nos calarem a boca, decidiram que os bolseiros de doutoramento deviam à FCUL 2750 euros/ano de propinas, mas que estes seriam cobertos pelo valor já providenciado pela FCT referente aos tais "gastos de formação". No entanto, a bolsa da FCT cobre apenas os 4 anos de trabalho de bancada. Não cobre o 5º ano que, antes da reforma pré-Bolonha (sim, eu ainda sou da velha guarda, saí da universidade a saber qualquer coisinha...), era utilizado para escrever a tese de doutoramento e que estava contemplado no período de registo da tese na universidade. Ora, já não bastava estarmos sem remuneração, como ainda teríamos que pagar 2750 euros à FCUL. Eram muitos os alunos nesta situação. Fizeram-se várias reuniões e tentámos arranjar um advogado pro-bono que quisesse defender a nossa causa. Todos nos viraram as costas. Mas nunca ficou bem esclarecido se isto se aplicaria a todos, a partir de que ano de inscrição se aplicaria e muitos casos houve que um belo choradinho não resolvesse sem qualquer pagamento. Portanto eu sempre guardei a íntima esperança de que na altura estes valores não fossem realmente cobrados, que ainda existisse uma réstia de decência nos corpos administrativos da FCUL.

Em Setembro de 2008 terminou então a minha bolsa de doutoramento e comecei a escrever a tese. Durante o ano da escrita, raras foram as vezes que voltei à FCUL pois preferia escrever em casa, portanto nem luz eu estava a gastar à mui nobre instituição. E foi assim que, após andar desesperadamente à procura de emprego sem sucesso, após passar pelo turbilhão de emoções que é escrever uma tese de doutoramento (e que só compreende do que falo quem já passou por isso, os altos e principalmente os baixos de desmotivação e desespero, aos quais a infrutífera busca de emprego não ajudava), após ter estado 2 meses a vender sapatilhas numa loja de desporto por não ter encontrado mais nenhum meio de subsistência, após finalmente admitir que aquela situação era incomportável e que eu estava a delapidar as poupanças dos meus pais, após deixar toda a vida que construí durante 12 anos em Lisboa (a casa, os amigos) e voltar para casa dos meus pais no Algarve, ainda assim no dia 7 de Dezembro de 2009 eu lá estava para a entregar a muito suada tese. E eis que me apresentam a factura: 2750 euros respectivos ao 5º ano de doutoramento. Só quando este valor fosse pago, o meu processo de doutoramento seria "descongelado" e poderiam ser marcadas as provas de discussão da tese.

 Portanto, para além de ter estado sem emprego e sem remuneração durante 1 ano e de nem sequer ter estado a dar qualquer tipo de despesa à universidade, ainda assim eu teria que desencantar, sabe-se lá de onde, 2750 euros. Aliás, uma pessoa dá um pontapé numa pedra e *XARAN!* aparecem 2750 euros...

De nada adiantaram as provas de falta de rendimentos, as provas de que estava a auferir o Rendimento Social de Inserção, o que por si só já é praticamente um atestado de pobreza. A resposta que recebi do excelentíssimo director da FCUL foi que tinha muita pena da minha precária situação económica mas que teria que pagar.

Em 2009, a Universidade de Lisboa criou o "UL2009 Consciência Social" cujos pormenores podem ser consultados aqui:
http://www.ul.pt/portal/page?_pageid=173,1287058&_dad=portal&_schema=PORTAL

Enviei vários emails a explicar a minha situação, dos quais até hoje aguardo uma resposta. Tentei ter uma abordagem mais agressiva e telefonei, ao que me responderam que eles próprios estavam a aguardar uma resposta porque não sabiam se o projecto englobava alunos de doutoramento. E até hoje aguardamos todos uma resposta...

Muitas vezes, neste tipo de situações, os orientadores de doutoramento conseguem arranjar fundos para cobrir estas despesas. A minha orientadora, para além da total falta de qualidade científica e organizacional da orientação, nunca teve dinheiro para me ajudar, embora uma parte do dinheiro de gastos de formação financiado pela minha bolsa tenha servido para pagar propinas de mestrado a outros membros do grupo.

Finalmente, numa das muitas reuniões com colegas na mesma situação, descobrimos uma excepção no regulamento em vigor no qual "Os alunos com comprovadas carências económicas terão direito a uma redução de 50% no valor da propina". Lá fomos nós buscar provas de (não) rendimento e escrever mais um requerimento ao excelentíssimo director da FCUL. O caso não foi geral, na sua grande maioria a resposta foi bastante mais rápida, mas no meu caso, o meu segundo requerimento (este, com a argumentação de que o regulamento prevê a redução de 50% da propina) foi apresentado no dia 23 de Março de 2010 e no dia 21 de Junho de 2010, face à ausência de respostas até então, voltei a fazer novo requerimento. E assim já se tinham passado mais de 6 meses desde a entrega da tese à universidade.

Imagino que para grande desilusão do excelentíssimo director da FCUL, lá tiveram mesmo que me fazer a redução. E lá fui eu pedir mais um "paitrocínio" para pagar os 1375 euros que mais revolta me provocaram, provocam e provocarão em toda a minha vida, pois considero que nos foi feita uma injustica, uma desconsideração monstruosa e, acima de tudo, um acto que demonstra a total falta de honra e de boa fé com que se gerem estas instituições.

E eis que, finalmente, no dia 7 de Janeiro de 2011, exactamente 13 meses depois de ter entregue a tese à universidade, terminei o tão atribulado doutoramento. E vou fazer questão de contar esta história a toda a gente que conhecer e impedir o máximo número de alunos que poder a entrar na FCUL, para que nunca eles passem pelo que eu e outros colegas passámos. E muitas outras coisas por lá se passaram que, não pertencendo ao assunto deste post mas revelando a mesma falta de carácter, serão com certeza abordados neste blog em posts futuros.

E agora?, perguntam vocês. E agora continuo em formação! Que é como quem diz, vou vivendo de bolsas!...

PS- Aos senhores da FCUL que eventualmente venham a ler isto deixo aqui uma nota especial: VÓS SOIS TODOS UNS VALENTES FILHOS DA PUTA!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

As luas da FCT: às vezes sim, às vezes não...

No segundo semestre do ano passado (2010), andaram as instituições e centros de investigação num reboliço. A causa? A FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia) tinha resolvido que os valores das bolsas pagas aos bolseiros deviam estar de acordo com o grau do bolseiro e não de acordo com o tipo de bolsa. Assim, pressionou os centros para que procedessem à conversão das respectivas bolsas. Ou seja, um doutorado com uma bolsa para mestres teria que passar a ganhar obrigatoriamente como doutor e a sua bolsa deveria ser convertida a bolsa de pós-doutoramento.

Tudo isto parece muito bem ao caro leitor. A mim também me pareceria bem, não fosse o pormenor de que associado à conversão da bolsa, NÃO estaria um aumento do orçamento para a respectiva bolsa. Se no projecto estava associada uma bolsa de investigação para mestres de 1 ano, então o orçamento para a contratação desse bolseiro seriam 11760 euros anuais (12 x 980 euros, sim porque cientista que se preze não tem cá esses privilégios de subsídios de férias e de Natal. E ainda estamos agradecidos porque ganhamos para fazer aquilo que gostamos, tal como sugeriu o caríssimo senhor presidente da FCT!). Ora como uma bolsa de pós-doc são 1495 euros mensais, o valor anual concedido só daria para cobrir cerca de 8 meses de bolsa e não os 12 meses iniciais.
Como de costume, quem se fode é sempre o mexilhão... fode-se o mexilhão "centro/grupo de investigação" porque contava com um bolseiro durante 12 meses e só o vai ter durante 8; fode-se o mexilhão "bolseiro" (este até já anda com uma bisnaguita de vaselina no bolso), que pensava que teria bolsa durante 12 meses e só vai ter durante 8 (e não, a seguir também não tem direito a essa coisa maravilhosa que é o subsídio de desemprego, porque os bolseiros não são considerados empregados!) e, para além disso, passa a estar limitado a bolsas que estejam de acordo com o seu grau de formação, já que qualquer grupo com um senso financeiro acima do dos nossos caríssimos governantes, passará a preterir bolseiros que estejam acima do grau a que compete a bolsa pois sabem que tal acarretará óbvias desvantagens.

Ora a FCT em grande estilo como sempre nos habituou, a mudar as regras quando o jogo vai a meio. Atitude que, de resto, é apanágio de muitas outras instituições associadas ao ensino superior e academia científica.
O acima descrito já seria grave e suficiente para um dos meus cáusticos posts neste blog. Mas a FCT vale muito mais! Ora depois de todo este reboliço, depois dos centros terem procedido à conversão das bolsas para estarem de acordo com o grau do bolseiro e de assim o bolseiro ver o seu tempo de bolsa reduzido, a FCT lança as novas "Normas para Atribuição e Gestão de Bolsas de Formação Avançada no âmbito de Projectos e Instituições de I&D", publicadas em Fevereiro de 2011 e que podem ser consultadas no seguinte endereço:
http://alfa.fct.mctes.pt/apoios/bolsas/normasbolsasemprojectosunidades

Eis a minha surpresa quando leio, na secção 1.4 - Avaliação das Candidaturas, o seguinte parágrafo:
"Os Mestres e Doutores ao concorrerem auto-limitam-se e concorrem na sua categoria de Licenciados, aceitando as condições da bolsa oferecida, nomeadamente o valor do subsídio de manutenção mensal correspondente (no caso, €745,00). Ou seja, o valor do subsídio é determinado pelo nível habilitacional exigido em edital e não pelo grau académico actual do(a) candidato(a) seleccionado(a), se superior ao exigido."

Depois disto, o que é que eu posso dizer? Obrigado FCT! É bom saber que posso sempre contar contigo para ter assunto para mais um post no meu blog! :)
Aqui fica a minha dedicatória musical
http://www.youtube.com/watch?v=FAUYlvcforc

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Turismo Português

Como mente brilhante que sou, tenho uma proposta para o próximo slogan turístico para divulgar Portugal.

"Portugal: onde o seu café é servido por um doutorado em astrofísica nuclear!"

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Inquéritos (pouco) Anónimos

O Conselho de Garantia da Universidade de Lisboa decidiu lançar uma campanha de inquéritos à satisfação dos estudantes e docentes, como (e passo a citar) "resposta a uma recomendação dos avaliadores da European University Association". No link para o preenchimento dos ditos inquéritos

http://inqueritos.campus.ul.pt/page?stage=AlunosIdentification

Deparamo-nos com o seguinte:

"Para aceder aos questionários são-lhe pedidos o número de BI e a data de nascimento. Estes dados servem apenas como "password" de entrada e como meio de acesso a automatismos indispensáveis à validação do questionário. Essa informação NÃO será, porém, utilizada - pelo que a Reitoria garante o anonimato da sua resposta e a confidencialidade de todos estes dados."

Ora bem, vamos ver se entendi... Então o inquérito é anónimo mas a autenticação é feita através do nº do Bilhete de Identidade. Das duas uma: ou o conceito de anonimato destes senhores é muito diferente do meu ou a Universidade de Lisboa necessita realmente de uma auditoria de qualidade porque alunos que acreditem neste anonimato não primam, de facto, pela inteligência...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Alice no País das Mentiras

Neste país, e hoje mais que nunca, reina o ditado "Mais vale cair em graça do que ser engraçado". Aquilo que realmente conta não é se se licenciaram com as melhoras notas, se fizeram trabalhos importantes, se percebem realmente daquilo que fazem. Não. Desenganem-se. Esqueçam as licenciaturas, as horas de marranço, a esperança num futuro melhor com base no conhecimento. Aquilo que realmente conta, meus senhores e minhas senhoras, é ter os amigos certos nos sítios certos. A corrupção, o compadrio, o tráfico de influências está tão profundamente enraízado em Portugal que, tenho a certeza que o êxtase de corrupção que se viveu no Brasil nos anos 80 com Collor de Mello, foi devido aos genes portugueses tão disseminados entre o povo-irmão.

A verdade é que até na ciência isto se vive. Não raras vezes assisti, impávida e serenamente, à atribuição pouco ortodoxa de bolsas de investigação no laboratório onde trabalhei durante o pré-estágio, estágio e doutoramento. Hoje, quando penso nisso, sinto-me cúmplice da situação, sinto que também eu entrei no jogo do compadrio, e por isso me repreendo interiormente. Laboratório este inserido numa instituição estatal de ensino superior bem conceituada no mundo académico. Pelo menos é a imagem que passa para quem está de fora. Para quem já lá esteve para além da licenciatura sabe bem que o ponto de podridão ao qual aquela instituição chegou, só se resolveria mesmo com uma bomba. E isto passou-se no laboratório onde eu trabalhei e passou-se no laboratório ao lado, em frente, no piso inferior, na faculdade em frente, na cidade ao lado, no país inteiro. 90% das bolsas de investigação atribuídas supostamente através de concurso público, já têm destinatário muito antes sequer de serem anunciadas em Diário da República. São atribuídas ao amigo que está muito desiludido com a vida, ou à amiga do investigador do laboratório ao lado enquanto está desempregada e não tem mais que fazer, à ex-colega de laboratório que é uma coitadinha infeliz, ou à filha do investigador principal do grupo, ou à amantíssima esposa do mesmo... Quanto mais triste a história e mais incompetente a pessoa, maiores as probabilidades da posição lhes ser dirigida.

Não raras vezes eu ouvi serem referidas as ditas bolsas, ainda antes sequer da sua publicação em Diário de República como é de lei, como "a bolsa de pessoa tal", numa total inegabilidade sobre quem iria "ganhar" o concurso. Assim mesmo, sem qualquer pudor ou vergonha.

Posto isto, não é de estranhar o rumo que a ciência está a tomar em Portugal. São estes os investigadores que estão nos laboratórios a fazer avançar novas descobertas científicas e, acima de tudo, serão estes os investigadores que serão professores universitários e ensinarão os vossos filhos.

Assim sendo, meus amigos, o meu conselho é: esqueçam os estudos, vão sair, socializar e, acima de tudo, arranjar amigos, mas dos bons! ;) But then again... já diz também o velho ditado "Se os conselhos fossem bons, não se davam, vendiam-se!"

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Os arsénicos da ciência

Ontem à noite voltou-me à lembrança a razão pela qual me apaixonei pela ciência. Há muito tempo que não me lembrava de sentir tanta excitação. Embora escape a muitos a compreensão da importância da descoberta anunciada ontem pela NASA, esta promete revolucionar totalmente os conceitos da química da vida. Encontrou-se um ET que existe na Terra. Parece ficção científica! Será que ainda viverei para assistir à descoberta de organismos baseados em silício em vez de carbono?
E fez-se uma conferência de imprensa à qual a imprensa simplesmente não compareceu. Eu esperava directos, debates... nada! Foi muito mais importante a decisão da FIFA sobre onde serão os próximos mundiais de futebol... E no final disto tudo, veda-se o conhecimento a quem se interessa e coloca-se o artigo fundamental desta descoberta numa revista a que poucos fora do meio científico (e mesmo alguns dentro) têm acesso. Eu acredito que a ciência deve ser do domínio público. Processem-me!
Quem estiver interessado em ler o artigo original, esteja à vontade para o sacar:

https://docs.google.com/leaf?id=0B6oMw6mvOEoJODM0M2JhZDctODAwNy00MjU1LWJiZDQtNjNlNzQwNjIxNWQ4&sort=name&layout=list&num=50

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Notícia de Última Hora - Previsões de Grande Melhoria da Balança Comercial Portuguesa

Segundo as últimas previsões, a Economia portuguesa em 2011 vai estar em alta devido a um grande aumento das exportações.




sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Crise? Qual crise?

Ah pois é meus amigos! Afinal andam a enganar-nos. Crise? Em Portugal claramente que não há crise, senão vejamos:

Professores e Investigadores - pagos a peso de ouro para esclarecer as mentes embrutecidas da geração vindoura e desvendar os mistérios insondáveis da ciência, respectivamente - passam, na verdade, 60% do seu tempo a realizar trabalho administrativo que quaisquer 750 euritos mensais pagariam. E quando digo 60% estou a ser optimista. Ele é um rol de propostas de fornecimento, orçamentos, adjudicações, notas de encomenda, confirmações de encomenda, guias de transporte, guias de remessa, guias de entrega, facturas, recibos... E em vez de estarem a preparar aulas ou a pensar em ciência, andam perdidos em todo um sistema burocrático que (segundo consta) é necessário! Com o dinheiro de 1 só salário de um professor ou investigador poder-se-iam pagar pelo menos 3 salários a funcionários administrativos. Portanto, Portugal claramente não pode estar em crise!

Outro exemplo: todos os anos saem milhares de licenciados das universidades estatais, financiadas (cada  vez menos) pelo estado. Ou seja, o estado está a investir recursos financeiros na formação de funcionários altamente qualificados (or so they say...). Todos os anos milhares de licenciados são atirados para profissões que nada têm a ver com a sua formação e para as quais qualquer 9º ano chegaria perfeitamente. Temos mestres em engenharia mecânica a servir em restaurantes, doutorados como caixeiros de lojas de desporto, pilotos de aviação a trabalhar em bares, licenciados em química a vender roupinhas da moda... e a lista poderia continuar indefinidamente. Portanto, Portugal claramente não pode estar em crise!

Pois sim, já sei que me vão falar nos gestores de empresas públicas, nos secretários dos secretários dos secretários dos consultores dos secretários dos secretários dos ministros. Diz que sim. Eu falo do que sei. Essas merdices mediáticas deixo para os jornalistas, não acabem eles a fazer cobranças difíceis...

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

The Big Bag (of Shit) Theory!

Foi em 1993 que tomei a infeliz decisão de optar pela área científica. Vivia-se a euforia da Genética. Não existia na altura um curso superior especificamente virado para a genética.   1º Erro não-Descartesiano: decidi-me pela Bioquímica e aí começou o princípio do fim. A "Pancada da Bioquímica", como lhe chamo, bateu forte e feio e não houve nenhum ser nesta terra que tivesse conseguido pôr-me juízo na cabeça (tanto que o meu pai me disse para eu ir para economia e gestão... lição nº1: os pais têm sempre razão).

Podia encontrar uns quantos bodes "respiratórios" a quem culpar pela minha opção pouco inteligente - o meu prof. de Físico-Química, o chulo do Psicólogo que fez os testes psicotécnicos - mas a verdade é que... mea culpa, mea maxima culpa!

Em vez de utilizar critérios de sensatez - empregabilidade, perspectivas de progressão e (o mais importante de tudo, não me venham cá com merdas filosóficas de que o dinheiro não compra felicidade) Taxa de Remuneração! - escolhi a ciência porque... ERA INTERESSANTE! AHAHAHAHHAHA Quão inconsciente se pode ser?

Mas a minha falta de discernimento não se ficou por aqui. 2º Erro não-Descartesiano: Alimentei a expectativa de que conseguiria prosseguir uma carreira científica... em PORTUGAL (imaginem!)!!!!!

Por isso, e para evitar que mais alminhas inconsssssssssssssientes (p'raí com 350 S's) criem ilusões, aqui ficam algumas leis empíricas irrefutáveis:

Lei Zero do Contra-Ciência: se dois corpos estão em equilíbrio mental com um terceiro, então nenhum deles é cientista!

1ª Lei do Contra-Ciência: a energia total dispendida numa carreira científica é igual à variação do Rendimento Social de Inserção (ou do Subsídio de Desemprego para os sortudos que consigam arranjar um qualquer trabalhito temporário num Centro de Atendimento Telefónico, considerado pelo estimado Eng. wannabe Sócrates como trabalho qualificado!)

2ª Lei do Contra-Ciência: A quantidade de entropia de qualquer sistema de financiamento científico tende a incrementar-se com o tempo, até alcançar um valor máximo, designado por FCT.

3ª Lei do Contra-Ciência: a inteligência dos académicos tende para zero quando o seu respectivo grau tende para o infinito.