Ridendo castigat mores...


Bem-vindo! Se veio aqui parar provavelmente veio enganado. Deve andar à procura de outro blog qualquer, muito mais interessante que este, e o google enganou-o e trouxe-o até aqui. Mas já que cá está, sente-se e beba um copo.

Este não é mais um blog com pretensiosismos intelectualóides nem tão pouco com carácter de intervenção. É pura e simplesmente um blog totalmente politicamente incorrecto escrito por alguém que trabalha em ciência em Portugal e que, nos tempos livres *command not found*, provavelmente não tem mais que fazer do que vir para aqui libertar as suas frustrações e dizer mal de tudo e de todos. Daí o Contra.

Não vale a pena adicionar este blog aos seus favoritos nem subscrever os feeds porque provavelmente não vai haver aqui nenhuma informação que verdadeiramente lhe interesse. Se procura informação científica credível também não vai encontrar. Tente na Web of Knowledge (3º corredor à esquerda, 2ª porta a seguir à escada; por favor ignore o letreiro à entrada que diz WC). Se procura financiamento científico, então está mesmo perdido de todo! Procure na FCT - Foda-se a Ciência e Tecnologia.

Se ainda está a ler isto é porque provavelmente é quase tão desocupado como eu e isso não revela nada de auspicioso para o seu futuro. De qualquer modo, deixe-se ficar e prepare-se para algo totalmente diferente! A realidade das histórias que aqui serão descritas é tudo menos coincidência e estas seriam hilariantes se não fossem tragicamente cómicas.

(Esta mensagem foi patrocinada pelo Dicionário da Língua Portuguesa, edição pré-acordo ortográfico, cuja palavra do dia é provavelmente. Sim, que a ligação à net para poder blogar é cara e a ciência, como toda a gente sabe, não é exactamente uma fonte lucrativa.)

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Chegou o momento...

Caros amigos, chegou o momento. Este não é mais um post, este é "O" post. É o post que eu há tanto ansiava por publicar e não o fiz há mais tempo por receio de retaliações que me pudessem prejudicar a vida profissional. Mas agora que já tenho oficialmente o papelinho mágico, vou meter a boca no trombone ou, numa tradução literal de uma expressão americana, vou mandar a merda à ventoinha! A história que vos vou contar é verídica e passada na primeira pessoa e revela a total falta de carácter, de palavra de honra e de boa fé praticada nas instituições públicas de ensino superior, mais concretamente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL).

Em 2004 candidatei-me a uma bolsa de doutoramento financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) que acabei por ganhar. Ao proceder à inscrição no plano de doutoramento da FCUL (e respectivo registo da tese), o regulamento que estava em vigor não previa qualquer pagamento de propinas. Até porque a própria FCT já disponibiliza à faculdade o valor de 2750 euros/ano referentes ao que eles chamam de gastos de formação.
A meio do meu doutoramento, começaram a ouvir-se rumores de que a FCUL passaria a cobrar o valor anual de 4000 euros referentes a propinas de doutoramento e que esta medida seria aplicada a todos os alunos de doutoramento, independentemente do ano em que se teriam inscrito, ou seja, com carácter retroactivo. Obviamente, instalou-se o pânico entre os alunos de doutoramento! Tendo em conta que o valor anual de uma bolsa de doutoramento é de 11760 euros, ter que pagar 4000 por ano, 34% do nosso "subsídio de manutenção mensal" seria para pagar propinas que nem sequer estavam previstas na altura da nossa inscrição. Fizeram-se reuniões e manifestaram-se opiniões de desagrado junto dos dirigentes da FCUL, tentanto trazê-los à razão.
Todos nós sabemos o caótico (para não lhe chamar totalmente insustentado) estado financeiro das universidades públicas em Portugal. Mas não devem ser os alunos a pagar a factura e muito menos serem mudadas as regras do jogo quando este vai a meio. A grande maioria dos alunos de doutoramento, se soubesse que teria que pagar 4000 euros de propinas por ano, nem sequer se teria inscrito para doutoramento, pois sabiam à partida que era incomportável. Que aplicassem estas regras aos novos inscritos, tudo bem, estes já saberiam ao que íam, agora aplicar esta regra indiscriminadamente a todos os que se tinham inscrito sob outras condições, foi um acto de total desrespeito pelos alunos de doutoramento que, em última análise, são os que mais contribuem para a investigação científica que se faz nas universidades.

Perante perspectivas sérias de manifestações mais contundentes que obviamente manchariam a reputação da mui nobre FCUL, esta recuou. Para nos calarem a boca, decidiram que os bolseiros de doutoramento deviam à FCUL 2750 euros/ano de propinas, mas que estes seriam cobertos pelo valor já providenciado pela FCT referente aos tais "gastos de formação". No entanto, a bolsa da FCT cobre apenas os 4 anos de trabalho de bancada. Não cobre o 5º ano que, antes da reforma pré-Bolonha (sim, eu ainda sou da velha guarda, saí da universidade a saber qualquer coisinha...), era utilizado para escrever a tese de doutoramento e que estava contemplado no período de registo da tese na universidade. Ora, já não bastava estarmos sem remuneração, como ainda teríamos que pagar 2750 euros à FCUL. Eram muitos os alunos nesta situação. Fizeram-se várias reuniões e tentámos arranjar um advogado pro-bono que quisesse defender a nossa causa. Todos nos viraram as costas. Mas nunca ficou bem esclarecido se isto se aplicaria a todos, a partir de que ano de inscrição se aplicaria e muitos casos houve que um belo choradinho não resolvesse sem qualquer pagamento. Portanto eu sempre guardei a íntima esperança de que na altura estes valores não fossem realmente cobrados, que ainda existisse uma réstia de decência nos corpos administrativos da FCUL.

Em Setembro de 2008 terminou então a minha bolsa de doutoramento e comecei a escrever a tese. Durante o ano da escrita, raras foram as vezes que voltei à FCUL pois preferia escrever em casa, portanto nem luz eu estava a gastar à mui nobre instituição. E foi assim que, após andar desesperadamente à procura de emprego sem sucesso, após passar pelo turbilhão de emoções que é escrever uma tese de doutoramento (e que só compreende do que falo quem já passou por isso, os altos e principalmente os baixos de desmotivação e desespero, aos quais a infrutífera busca de emprego não ajudava), após ter estado 2 meses a vender sapatilhas numa loja de desporto por não ter encontrado mais nenhum meio de subsistência, após finalmente admitir que aquela situação era incomportável e que eu estava a delapidar as poupanças dos meus pais, após deixar toda a vida que construí durante 12 anos em Lisboa (a casa, os amigos) e voltar para casa dos meus pais no Algarve, ainda assim no dia 7 de Dezembro de 2009 eu lá estava para a entregar a muito suada tese. E eis que me apresentam a factura: 2750 euros respectivos ao 5º ano de doutoramento. Só quando este valor fosse pago, o meu processo de doutoramento seria "descongelado" e poderiam ser marcadas as provas de discussão da tese.

 Portanto, para além de ter estado sem emprego e sem remuneração durante 1 ano e de nem sequer ter estado a dar qualquer tipo de despesa à universidade, ainda assim eu teria que desencantar, sabe-se lá de onde, 2750 euros. Aliás, uma pessoa dá um pontapé numa pedra e *XARAN!* aparecem 2750 euros...

De nada adiantaram as provas de falta de rendimentos, as provas de que estava a auferir o Rendimento Social de Inserção, o que por si só já é praticamente um atestado de pobreza. A resposta que recebi do excelentíssimo director da FCUL foi que tinha muita pena da minha precária situação económica mas que teria que pagar.

Em 2009, a Universidade de Lisboa criou o "UL2009 Consciência Social" cujos pormenores podem ser consultados aqui:
http://www.ul.pt/portal/page?_pageid=173,1287058&_dad=portal&_schema=PORTAL

Enviei vários emails a explicar a minha situação, dos quais até hoje aguardo uma resposta. Tentei ter uma abordagem mais agressiva e telefonei, ao que me responderam que eles próprios estavam a aguardar uma resposta porque não sabiam se o projecto englobava alunos de doutoramento. E até hoje aguardamos todos uma resposta...

Muitas vezes, neste tipo de situações, os orientadores de doutoramento conseguem arranjar fundos para cobrir estas despesas. A minha orientadora, para além da total falta de qualidade científica e organizacional da orientação, nunca teve dinheiro para me ajudar, embora uma parte do dinheiro de gastos de formação financiado pela minha bolsa tenha servido para pagar propinas de mestrado a outros membros do grupo.

Finalmente, numa das muitas reuniões com colegas na mesma situação, descobrimos uma excepção no regulamento em vigor no qual "Os alunos com comprovadas carências económicas terão direito a uma redução de 50% no valor da propina". Lá fomos nós buscar provas de (não) rendimento e escrever mais um requerimento ao excelentíssimo director da FCUL. O caso não foi geral, na sua grande maioria a resposta foi bastante mais rápida, mas no meu caso, o meu segundo requerimento (este, com a argumentação de que o regulamento prevê a redução de 50% da propina) foi apresentado no dia 23 de Março de 2010 e no dia 21 de Junho de 2010, face à ausência de respostas até então, voltei a fazer novo requerimento. E assim já se tinham passado mais de 6 meses desde a entrega da tese à universidade.

Imagino que para grande desilusão do excelentíssimo director da FCUL, lá tiveram mesmo que me fazer a redução. E lá fui eu pedir mais um "paitrocínio" para pagar os 1375 euros que mais revolta me provocaram, provocam e provocarão em toda a minha vida, pois considero que nos foi feita uma injustica, uma desconsideração monstruosa e, acima de tudo, um acto que demonstra a total falta de honra e de boa fé com que se gerem estas instituições.

E eis que, finalmente, no dia 7 de Janeiro de 2011, exactamente 13 meses depois de ter entregue a tese à universidade, terminei o tão atribulado doutoramento. E vou fazer questão de contar esta história a toda a gente que conhecer e impedir o máximo número de alunos que poder a entrar na FCUL, para que nunca eles passem pelo que eu e outros colegas passámos. E muitas outras coisas por lá se passaram que, não pertencendo ao assunto deste post mas revelando a mesma falta de carácter, serão com certeza abordados neste blog em posts futuros.

E agora?, perguntam vocês. E agora continuo em formação! Que é como quem diz, vou vivendo de bolsas!...

PS- Aos senhores da FCUL que eventualmente venham a ler isto deixo aqui uma nota especial: VÓS SOIS TODOS UNS VALENTES FILHOS DA PUTA!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

As luas da FCT: às vezes sim, às vezes não...

No segundo semestre do ano passado (2010), andaram as instituições e centros de investigação num reboliço. A causa? A FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia) tinha resolvido que os valores das bolsas pagas aos bolseiros deviam estar de acordo com o grau do bolseiro e não de acordo com o tipo de bolsa. Assim, pressionou os centros para que procedessem à conversão das respectivas bolsas. Ou seja, um doutorado com uma bolsa para mestres teria que passar a ganhar obrigatoriamente como doutor e a sua bolsa deveria ser convertida a bolsa de pós-doutoramento.

Tudo isto parece muito bem ao caro leitor. A mim também me pareceria bem, não fosse o pormenor de que associado à conversão da bolsa, NÃO estaria um aumento do orçamento para a respectiva bolsa. Se no projecto estava associada uma bolsa de investigação para mestres de 1 ano, então o orçamento para a contratação desse bolseiro seriam 11760 euros anuais (12 x 980 euros, sim porque cientista que se preze não tem cá esses privilégios de subsídios de férias e de Natal. E ainda estamos agradecidos porque ganhamos para fazer aquilo que gostamos, tal como sugeriu o caríssimo senhor presidente da FCT!). Ora como uma bolsa de pós-doc são 1495 euros mensais, o valor anual concedido só daria para cobrir cerca de 8 meses de bolsa e não os 12 meses iniciais.
Como de costume, quem se fode é sempre o mexilhão... fode-se o mexilhão "centro/grupo de investigação" porque contava com um bolseiro durante 12 meses e só o vai ter durante 8; fode-se o mexilhão "bolseiro" (este até já anda com uma bisnaguita de vaselina no bolso), que pensava que teria bolsa durante 12 meses e só vai ter durante 8 (e não, a seguir também não tem direito a essa coisa maravilhosa que é o subsídio de desemprego, porque os bolseiros não são considerados empregados!) e, para além disso, passa a estar limitado a bolsas que estejam de acordo com o seu grau de formação, já que qualquer grupo com um senso financeiro acima do dos nossos caríssimos governantes, passará a preterir bolseiros que estejam acima do grau a que compete a bolsa pois sabem que tal acarretará óbvias desvantagens.

Ora a FCT em grande estilo como sempre nos habituou, a mudar as regras quando o jogo vai a meio. Atitude que, de resto, é apanágio de muitas outras instituições associadas ao ensino superior e academia científica.
O acima descrito já seria grave e suficiente para um dos meus cáusticos posts neste blog. Mas a FCT vale muito mais! Ora depois de todo este reboliço, depois dos centros terem procedido à conversão das bolsas para estarem de acordo com o grau do bolseiro e de assim o bolseiro ver o seu tempo de bolsa reduzido, a FCT lança as novas "Normas para Atribuição e Gestão de Bolsas de Formação Avançada no âmbito de Projectos e Instituições de I&D", publicadas em Fevereiro de 2011 e que podem ser consultadas no seguinte endereço:
http://alfa.fct.mctes.pt/apoios/bolsas/normasbolsasemprojectosunidades

Eis a minha surpresa quando leio, na secção 1.4 - Avaliação das Candidaturas, o seguinte parágrafo:
"Os Mestres e Doutores ao concorrerem auto-limitam-se e concorrem na sua categoria de Licenciados, aceitando as condições da bolsa oferecida, nomeadamente o valor do subsídio de manutenção mensal correspondente (no caso, €745,00). Ou seja, o valor do subsídio é determinado pelo nível habilitacional exigido em edital e não pelo grau académico actual do(a) candidato(a) seleccionado(a), se superior ao exigido."

Depois disto, o que é que eu posso dizer? Obrigado FCT! É bom saber que posso sempre contar contigo para ter assunto para mais um post no meu blog! :)
Aqui fica a minha dedicatória musical
http://www.youtube.com/watch?v=FAUYlvcforc