Ridendo castigat mores...


Bem-vindo! Se veio aqui parar provavelmente veio enganado. Deve andar à procura de outro blog qualquer, muito mais interessante que este, e o google enganou-o e trouxe-o até aqui. Mas já que cá está, sente-se e beba um copo.

Este não é mais um blog com pretensiosismos intelectualóides nem tão pouco com carácter de intervenção. É pura e simplesmente um blog totalmente politicamente incorrecto escrito por alguém que trabalha em ciência em Portugal e que, nos tempos livres *command not found*, provavelmente não tem mais que fazer do que vir para aqui libertar as suas frustrações e dizer mal de tudo e de todos. Daí o Contra.

Não vale a pena adicionar este blog aos seus favoritos nem subscrever os feeds porque provavelmente não vai haver aqui nenhuma informação que verdadeiramente lhe interesse. Se procura informação científica credível também não vai encontrar. Tente na Web of Knowledge (3º corredor à esquerda, 2ª porta a seguir à escada; por favor ignore o letreiro à entrada que diz WC). Se procura financiamento científico, então está mesmo perdido de todo! Procure na FCT - Foda-se a Ciência e Tecnologia.

Se ainda está a ler isto é porque provavelmente é quase tão desocupado como eu e isso não revela nada de auspicioso para o seu futuro. De qualquer modo, deixe-se ficar e prepare-se para algo totalmente diferente! A realidade das histórias que aqui serão descritas é tudo menos coincidência e estas seriam hilariantes se não fossem tragicamente cómicas.

(Esta mensagem foi patrocinada pelo Dicionário da Língua Portuguesa, edição pré-acordo ortográfico, cuja palavra do dia é provavelmente. Sim, que a ligação à net para poder blogar é cara e a ciência, como toda a gente sabe, não é exactamente uma fonte lucrativa.)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

IEFP: convidamos Vª Exa. à precariedade

Na passada semana, na sequência da minha inscrição no centro de emprego, digna de nota no post anterior deste mesmo blog, recebi uma carta do IEFP, "convidando-me" a comparecer à sessão de divulgação do programa de estágios profissionais na administração pública central (vulgo PEPAC). Muito diligentes e preocupados, os Srs. do centro de emprego, diria o caro leitor. Sem dúvida, diria eu, não fosse o carácter coercivo da dita missiva, na qual se pode ler:

"A sua não comparência ou posterior recusa em participar na referida intervenção pode implicar as seguintes consequências:
* anulação da sua inscrição para emprego
* impossibilidade de revalidação da sua inscrição nos 90 dias que se seguem à data anulação"

E assina, com os melhores cumprimentos, pelo director do referido centro de emprego, o Exmo. Sr. Rui Maria.
E não, não me enganei a transcrever as frases, de facto falta ali um "da" entre data e anulação (DAAAAAAHH!!!).

Ora, eu que tenho este defeito terrível que é o espírito crítico, e reajo mal a ameaças, fiquei a pensar (às vezes dá-me p'ra isto, pensar... coisas de quem não tem mais nada que fazer!)... Esta brilhante carta levanta-me uma série de questões que, atempadamente, dirigirei directamente ao IEFP, mas que decidi antecipar neste meu brilhante blog e ao não menos brilhante leitor:

1- que obrigação tenho eu perante o IEFP de comparecer a esta sessão de divulgação se não estou a auferir de nenhum subsídio do estado devido à minha condição de indigente? E o IEFP, está a cumprir com a sua obrigação de me arranjar emprego? Que diligências estão a ser feitas nesse sentido? Se o IEFP considera que coagir as pessoas a irem a sessões de divulgação de estágios profissionais é uma boa forma de lhes encontrar emprego, então cada vez mais entendo por que razão a taxa de desemprego atinge já quase os 17%;

2- perdoem a minha inocência, mas sempre pensei que o objectivo de um estágio (profissional ou não) fosse adquirir experiência inicial e competência. Gostava que me explicassem como é que um estágio profissional irá contribuir para a minha experiência ou aquisição de competências, tendo eu doutoramento e datando a minha primeira produção científica de 2003, perfazendo um total de mais de 10 anos de experiência comprovada na área...

3- grandes esforços têm sido envidados no sentido de reduzir a função pública, fazendo-nos crer que existem funcionários a mais e que o trabalho que estes têm a desempenhar não justifica tamanho erário. E agora querem contratar estagiários para desempenhar essas funções? Mas afinal existem ou não trabalhadores do estado a mais? Se existem funcionários a mais, então para que são necessários estagiários? Ou isto não passa de mais um embuste para escamotear os vergonhosos índices de desemprego?

4- se não existem funcionários do estado a mais e, de facto, há necessidade de encontrar mão-de-obra extra para desempenhar as tarefas em mãos, então estão a despedir-se funcionários públicos porquê? Para os substituir por estagiários? Então isto não passa de uma artimanha para "contratarem" pessoal altamente qualificado a preços de saldo! Eu compreendo que seja realmente muito mais vantajoso para o estado contratar-me como estagiário para desempenhar tarefas em que, com as minhas competências, estaria a ganhar, no mínimo, 3 vezes mais. Efectivamente, pelas cartas que recebo, não só do IEFP como de outras entidades públicas, é bastante claro para mim que realmente precisam de uma ajudinha, especialmente no que toca à construção gramatical. Mas não gozem com a minha cara!

Como escreveu alguém que conheço: não tarda o IEFP está a subsidiar estágios em bordéis e o populacho até vai ficar agradecidinho por essa oportunidade...

EXMO. SR. RUI MARIA E RESPECTIVO DIRECTOR DO CENTRO DE EMPREGO, IDE-VOS FODER, SIM?

Com os melhores cumprimentos, claro...

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Viagens na minha terra: Centro de Emprego

Cerca de 6 meses após ter passado a pertencer à maior classe proletária do país - os desempregados - e de ter delapidado as minhas parcas economias, decidi inscrever-me no centro de emprego da cidade onde resido actualmente. Não que tenha ilusões de que consiga efectivamente arranjar emprego por este meio, mas porque: a) faço questão de fazer parte das estatísticas, e b) uma vez que o país investiu na minha formação e eu cumpri a minha parte - estudei, formei-me com sucesso e contribuí para o desenvolvimento da ciência em Portugal -, agora que o meu país não me dá oportunidade, faço questão de ser mais um fardo e ir pedir (de novo) o Rendimento Social de Inserção. Mesmo que não o consiga (que considero ser o mais provável) pelo menos tiveram que se dar ao trabalho de analisar o meu caso.

Ora, nos dias que correm, uma ida ao centro de emprego é já algo banal, especialmente numa região em que o desemprego ultrapassou já os 20%. Portanto, o leitor pergunta-se porque raio esta "viagem na minha terra" será assunto para mais um dos meus já conhecidamente corrosivos posts. E eu prometo que quando tiver chegado ao fim deste post terá compreendido (se não tiver compreendido então talvez seja melhor ir ler um outro blog sobre a última celebridade do mundo côr-de-rosa ou os penteados que vão estar na moda na próxima estação...).

Eis então que a minha primeira supresa quando me dirigi ao centro de emprego (de ora em diante referido como CE) foi a sua localização. Desde há muitos anos que este CE se situa na zona central da cidade, numa localização de fácil acesso. Pois qual não foi o meu espanto ao saber que o CE tinha sido deslocalizado! Curiosamente (ou devo dizer estrategicamente?), o CE foi literalmente refundido para uma zona industrial limítrofe da cidade, cuja abrangência por transportes públicos é escassa e limitada. No entanto, tem um bom parque de estacionamento, pois toda a gente sabe que possuir um automóvel é condição essencial a qualquer desempregado que leve a sério a sua busca por esse bem tão escasso e luxuoso que é ter um emprego! Eu, desprevenidamente, lá tive que caminhar até à nova localização do CE. Raios me partam se vi uma única placa de indicação pelo caminho a indicar onde ficava esta nova localização!

Entrando nestas novíssimas instalações, começa o enredo kafkiano do costume: o sistema de distribuição de senhas estava "avariado". Um edifício novo, a tecnologia existe, mas está "avariada". Fiquei a saber mais tarde que esta "avaria" nada mais é do que um embuste, uma patranha ardilosa originada por questões de gestão e organização duvidosas. O que se passa é que existe um limite máximo de senhas de atendimento que são distribuídas por dia e, cito o segurança que me atendeu, "tendo em conta o número de técnicos que estão disponíveis". E pergunto eu: então e onde andam os restantes técnicos que não estão disponíveis? Estão a fazer o quê? A delinear estratégias para ludibriar as estatísticas, como as "formações" e os "estágios"? Ou simplesmente não existem técnicos suficientes? Não seja por isso, eu encarrego-me já de vos indicar umas quantas pessoas competentes para o efeito. Competentes? Ah, peço desculpa, bem sei que esse é um critério de desclassificação...

Sentei-me e aguardei pacientemente a minha vez (nota mental: para a próxima levar o portátil para ir escrevendo este post em tempo real), não sem observar atentamente tudo o que me rodeava. Constatei, já sem surpresa - porque é facto patente aos olhos de todos que o actual governo está apostado em escorraçar daqui para fora todos aqueles que tenham mais que 2 neurónios - que existe disponível, facilmente acessível, e convenientemente deixado "ao acaso", em cima da única mesa que existe para utilização do público, um dossier para consulta, em cuja capa se pode ler em letras garrafais "OPORTUNIDADES DE EMPREGO PARA O ESTRANGEIRO". Foi também com pouca surpresa que verifiquei que não estava assim tão facilmente disponível para consulta nem uma única vaga de emprego em Portugal ou sequer na região... Ah! Eu e as minhas teorias da conspiração!... Foi, com toda a certeza, um lapso!

Aguardei cerca de 2 horas e nada tenho a apontar ao atendimento. Quando me perguntaram que emprego aceitaria imediatamente, apeteceu-me responder "Qualquer um que inclua um salário". Fiquei a saber que para me candidatar ao RSI terei que fazer prova de que estou activamente à procura de emprego, apresentando 4 respostas a anúncios por mês. AHAHAHHAHAHAHAH! Isto é uma busca activa de emprego? 4 anúncios de emprego por mês para mim é prospecção de mercado, busca activa é 4 anúncios por dia... 4 é também o número de anúncios de emprego disponíveis na cidade... É de deixar qualquer um perplexo como é possível existirem tantos desempregados quando existe tal abundância e diversidade de empregos. Claramente o povo português não quer é trabalhar!

Vejo agora nas notícias o nosso caríssimo governante leporídeo a anunciar mais uns milhões do QREN na qualificação dos portugueses. Tendo em conta que a grande percentagem de desempregados actualmente em Portugal são altamente qualificados, com licenciaturas, mestrados, pós-graduações, etc, parece-me realmente uma medida extremamente útil para resolver os graves problemas do país... Gostava de saber qual é a qualificação que me recomendam... deverei fazer um segundo doutoramento?