Ridendo castigat mores...


Bem-vindo! Se veio aqui parar provavelmente veio enganado. Deve andar à procura de outro blog qualquer, muito mais interessante que este, e o google enganou-o e trouxe-o até aqui. Mas já que cá está, sente-se e beba um copo.

Este não é mais um blog com pretensiosismos intelectualóides nem tão pouco com carácter de intervenção. É pura e simplesmente um blog totalmente politicamente incorrecto escrito por alguém que trabalha em ciência em Portugal e que, nos tempos livres *command not found*, provavelmente não tem mais que fazer do que vir para aqui libertar as suas frustrações e dizer mal de tudo e de todos. Daí o Contra.

Não vale a pena adicionar este blog aos seus favoritos nem subscrever os feeds porque provavelmente não vai haver aqui nenhuma informação que verdadeiramente lhe interesse. Se procura informação científica credível também não vai encontrar. Tente na Web of Knowledge (3º corredor à esquerda, 2ª porta a seguir à escada; por favor ignore o letreiro à entrada que diz WC). Se procura financiamento científico, então está mesmo perdido de todo! Procure na FCT - Foda-se a Ciência e Tecnologia.

Se ainda está a ler isto é porque provavelmente é quase tão desocupado como eu e isso não revela nada de auspicioso para o seu futuro. De qualquer modo, deixe-se ficar e prepare-se para algo totalmente diferente! A realidade das histórias que aqui serão descritas é tudo menos coincidência e estas seriam hilariantes se não fossem tragicamente cómicas.

(Esta mensagem foi patrocinada pelo Dicionário da Língua Portuguesa, edição pré-acordo ortográfico, cuja palavra do dia é provavelmente. Sim, que a ligação à net para poder blogar é cara e a ciência, como toda a gente sabe, não é exactamente uma fonte lucrativa.)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Falta de Liquidez (ou tão tristemente actual...)

Mais de um ano passou desde a minha última publicação e constato, ao ler as mensagens anteriores, que tudo continua tão tristemente actual. Em boa verdade não, a realidade actual consegue ultrapassar todas as minhas expectativas mais pessimistas.

Um ano volvido... um ano em que Portugal cada vez mais se afunda neste pântano pestilento que é a União Europeia. Um ano em que cada vez mais jovens altamente qualificados se vêem obrigados a abandonar o seu país, a sua família, a sua vida, para procurarem a mera sobrevivência num qualquer país estrangeiro. Até países outrora considerados de 3º mundo, são agora capazes de oferecer a estes jovens mais e melhores oportunidades.

Um ano em que assistimos, com estupefacção (ou talvez não, tendo em conta a proveniência das declarações), a um primeiro-ministro que chama o povo que o elegeu de piegas, num total desrespeito pelos sacrifícios impostos em nome de uma estabilidade económica que nunca chega;
a um secretário de estado da Juventude que, em modo "quem está mal que se mude", apela a que os jovens saiam da sua "zona de conforto" e insistem em insultar a inteligência dos que a isto assistem dizendo que estes jovens vão buscar know-how e voltarão depois para enriquecer o país - mas quem em sua sã consciência acredita que estes jovens voltarão a um país que não lhes deu oportunidade?;
a um ministro adjunto e dos assuntos parlamentares que era doutor ainda antes de ser licenciado e até a sua suposta licenciatura é obscura;
a um ministro da economia que, face a um povo sereno que come e cala um "enorme aumento de impostos", diz estar perante o melhor povo do mundo (afinal somos os bons alunos da Europa!);
a uma demonstração pública (pouco) velada da subserviência de Portugal aos interesses (pouco) europeus, no dia em que se comemorava a implantação da República;

... e tantas, tantas outras pérolas oferecidas por estes porcos que (des)governam esta jangada de pedra cada vez mais afundada, qual Titanic, mas não em água e sim em merda! Tanta tanta merda!...

Mais um ano em que se acenam (para alemão ver) com milhões para investir na ciência em Portugal, mas as Universidades estão à beira da falência e assumem fechar portas e se demonstra que o dinheiro efectivamente investido "cobre, mesmo na hipótese mais conservadora, 2,5% do montante global solicitado". Um ano em que novamente o meu projecto de investigação científica "inovador e ambicioso", tal como descrito na avaliação da entidade financiadora (FCT), foi rejeitado... um ano em que, tal como esperava e não obstante o meu constante esforço em querer contribuir para a cultura científica do meu país, o desemprego mais uma vez me bateu à porta, sem qualquer protecção social que não sejam as economias dos meus pais.

Um ano em que, não auferindo eu quaisquer rendimentos, a minha ex-entidade empregadora, alegando falta de liquidez, levou mais de 5 meses para me pagar mais de 300 euros que teriam que me ser reembolsados. Meus caros senhores, eu sou sensível e empática com a vossa falta de liquidez! De facto, estou tão solidária com o vosso argumento, que penso seriamente utilizá-lo no pagamento das próximas facturas de água, luz e gás! Quiçá no próximo pagamento da renda ao senhorio ou na próxima prestação do crédito habitação ao banco! Já estou mesmo a imaginar o Sr. Espírito Santo ou o Sr. Ulrich lavados em lágrimas com a minha falta de liquidez! Mais! Quando fôr à mercearia do Tio Belmiro, vou pagar com isso mesmo: falta de liquidez!